Aquarius

Drama

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Aquarius
16 de Julho de 1950

Domingo, 16 de Julho

Lembro-me dos detalhes de quando ganhei esse caderninho preto. Em algum fundo de bar de Belo Horizonte, cheinho de outros estudantes, da Faculdade de Direto à Faculdade de Medicina, todos ainda sóbrios. Lembro até do movimento do ar naquele dia em que eu completava ano; taciturno. Relembro da fala que veio acompanhada do caderninho; para você, meu bom amigo, para que não tenha desculpa de iniciar aquele seu sonho lá! Vejam bem, sonho lá! Foi bem assim que o jovem já sem rosto me disse. Falava ele da minha menção, que há um tempo havia feito, de querer escrever um romance. Achava eu que poderia conceber um clássico, quem sabe ser tão lembrado quanto Ernst Hemingway ou Liév Tolstoi. Ah, eu com meus vinte e poucos anos tinha como a maior de minhas preocupações essa, ser lembrado! O presente não me era importante confesso que nem mesmo hoje o é , só pensava no depois. No epitáfio que estaria escrito na minha lápide. Nas flores que seriam postas em cima do meu túmulo por desconhecidos que me admiravam e idolatravam postumamente pelo que eu tinha sido um dia! Como eu sonhava essas coisas. Deleitava-me com essas memórias inventadas do futuro, crente de que um dia, ah, um dia! Eu seria tão importante quanto qualquer um daqueles nomes que ouvimos falar tanto. Não especificamente alguém da literatura, como alguns podem supor. Vejamos, não que meu amor por essa fosse máximo ou mínimo. Eu teria aceito ser importante em qualquer ramo, desde que eu fosse lembrado depois que me enterrassem.embro-me dos detalhes de quando ganhei esse caderninho preto. Foi em um aniversário, já nem sei quantos anos completava eu, talvez vinte e dois ou vinte e três. Também não sei com certeza quem me ofertou, recordo somente que foi um dos meus vários colegas do tempo da faculdade de Direito, os quais já não mantenho contato algum. Fora isso, todo o resto ainda mora em mim. Sou um verdadeiro guardador de detalhes, daqueles que costumamos nos esquecer ou, às vezes, sequer notar a existência na cena.

Não poderia ser um Mozart, pois a música pouco me interessava. Juro que tentei até a pintura, mas proporção não era comigo. Restou a escrita qualquer um pode pegar folha e caneta, não é? E bem lá para os meus quinze anos coloquei na cabeça que um dia escreveria um livro, bastava um, desde que fosse ele de importância magnânima. Empurrei a ideia com a barriga, afinal, qual grande obra poderia surgir na mocidade? Não, não, eu precisava esperar um tiquinho de anos a mais. Tinha de ter no mínimo uns trinta anos para conseguir escrever um grande clássico ou algo com o mínimo de valor. Só com essa idade teria uma carga de leitura imensa, ideias geniais, uma escrita arrebatadora! Conformei-me com essa condição e recebi o caderninho com um sorriso bem do sincero, anotando em minha mente que o usaria alguns anos depois, quando começasse a minha grande obra. Isso o ano era 1922 ou 1923. Juro que não sei, como já lhes disse. 

Pois bem, hoje é dia 16 de julho de 1950. Um 16 de julho tão 16 de julho quanto o do ano desconhecido em que ganhei o caderno. Faz o mesmo ar frio e abafado e até o céu parece estar exatamente igual, com as mesmas nuvens cobrindo as mesmas estrelas. Há algumas diferenças, as quais já vou lhes dizer prefiro tratar esse diário não como um, mas como uma multidão inteirinha, por isso permitam-me usar o plural , mas no geral continua tudo com mais do mesmo.

Pois bem, pois bem. Trinta anos após aquele 16 de julho lá, tão parecido como esse acho que era até mesmo um domingo como hoje , o caderninho permanecia intocável nos fundos de alguma coisa. Primeiro nos fundos do baú do meu quarto de estudante, depois passou para os fundos de uma caixa em minha casa de solteiro, e, pela maior parte do tempo, descansou em sono ininterrupto nos fundos da gaveta do meu escritório, até que enfim o resgatei da quietude. Hoje ele reencontrou o mundo, quando eu o abri e deixei que respirasse. Agora escrevo nele, não o romance como prometido, mas essas besteiras sobre o dia a dia.

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