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VOYEURISMO BARKERIANO

 

     Jhonny colocou o CD para tocar e como um passe de mágica me senti novamente em nosso primeiro encontro. O roçar de nossos corpos, nossas línguas se encontrando e contorcendo-se como serpentes acasalando, o suor desprendendo o cheiro de sexo e inundando toda a suíte; o sangue, as dores... aquelas sensações se misturam a outras e neste momento cedo minha atenção à garota que acompanha meu homem. Os seios dela apontam para o teto e seus quadris deslizam sob a colcha da cama king size. Ela deseja o prazer prometido pelo estranho que conheceu a algumas horas numa boate a doze quilômetros do Hotel Fazenda onde estamos. Foi lá que tempos atrás meu destino foi selado. Volto a me concentrar na música que escapa do rádio, a minha preferida da banda Roxette: "Spend my time". Uma das can&c

      Às vezes me sinto confusa e já não sei há quanto tempo estou por aqui. Demorei em entender o que acontecia até notar que os cabelos de Jhonny já abandonavam seu couro cabeludo e em seu rosto, rugas surgiam. Foi tudo tão rápido e quando me dei conta, estava em uma escuridão onde o silêncio reinava. Andei por um tempo em todas as direções possíveis. Não havia ninguém lá. Além é claro daqueles... preciso me concentrar. O tempo é meu inimigo e esta é minha última oportunidade. Agora a música que toca é "Don't Speak" do No Doubt. Outra das canções que alimentam Jhonny, O Conquistador. Na verdade ele é um caçador que escolhe suas presas a dedo. Sempre as adolescentes, as carentes de aten&cced

      Ouço a garota murmurar algo e me aproximo de ambos a tempo de ouvi-la dizer: "Te amo!". Este é o sinal que ele sempre espera. Foi o que eu disse naquela noite depois da Boate. É o que todas nós dizemos a ele... é o gatilho para sua ignição. Jhonny a beija e assim que termina a troca de saliva, enfia o revólver na boca de Márcia. Sim, esse é o nome da acompanhante. Em breve ela conhecerá o outro lado. Dois dentes são arrancados com a entrada daquele cilindro em sua boca. Vejo lágrimas escorrerem pelo rosto de Márcia, seu coração está desalinhado e sua respiração chia como uma panela de pressão entremeada a soluços e engasgos. O Romeu, por outro lado, permanece da mesma forma de sempre: Olhos sem cor e sobrancelhas arqueadas, formando su

      As pernas da décima quarta vítima do Assassino das Boates ― uma lenda urbana cuja veracidade eu ignorei ― se debatem, chutam o ar em tentativas inúteis de impedir o inevitável. Jhonny engatilha o revólver e, antes de disparar, sussurra a mesma frase que até hoje ecoa em meus tímpanos estourados: "Pais ausentes, perigo presente!" Sim, ele é um aborto da natureza. Algo que foge à compreensão humana. Assim como os seres que nos aguardam do outro lado.

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