Quando as luzes se apagam

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Quando as luzes se apagam
Capítulo 0.0 - Prólogo

Não é fácil escrever. Digo isso pois a literatura sempre esteve presente na minha vida. Desde a infância, até a adolescência, da qual acabo de sair. Mais precisamente, livros. Não há nada mais instigante para mim do que ler um livro que me faça viajar para outro lugar. Conhecer novas personagens, culturas, cidades, tradições. É um pouco do mundo em um pedaço de papel. Aventura, romance, ficção. Cada gênero tem a sua especialidade, o que o torna único. Quando leio, tento focar mais na história em si do que na escrita. Claro, erros de português atrapalham e muito. Geralmente eles são pequenos e quase imperceptíveis. Muitos escritores não escrevem bem. E isso não os tornam menos escritores por isso. Eles são mais vistos como contadores de histórias, já que o foco está na mensagem transmitida e no enredo em si, e não apenas nas palavras que formam o todo. Desde que me formei em Cinema pela faculdade de comunicação e arte de São Paulo, comecei a escrever um livro. É uma história sobre um adolescente de quatorze anos que assassina toda a sua família na ceia de natal. Após isso, ele é enviado para um hospital psiquiátrico chamado "Saint Louise", e recebe uma pulseira azul. Mais tarde ele descobre que outros pacientes também possuem pulseiras, mas de cores diferentes. Cada cor representava um sentimento e esse sentimento era o que teria os levado a cometer tal crime. Mas acho que já estou falando um pouco demais. Apesar de parecer um pouco mórbido, a história reflete a visão humana sobre o que é o pensar e fazer. O que leva uma pessoa boa a fazer coisas ruins, e as consequências que isso acarreta não só para as vítimas, mas para os próprios causadores disso.

Eu sempre gostei muito de filmes e livros que me fizessem refletir sobre a vida. É algo que te instiga a querer saber mais e entender como o mundo e as pessoas funcionam. Não é algo vazio que te preenche por algumas horas e some deixando um grande buraco no cérebro. O ser humano é tão complexo. Sentimentos, expressões, ações, pensamentos, tantas coisas dentro de alguns ossos, tecido e sangue. Um emaranhado de coisas que formam a coisa mais valiosa no mundo, a vida humana.

Nesse exato momento, estou no metro a caminho do meu primeiro dia de trabalho. Apesar de trabalhar no meu livro dia e noite, pronto para inscreve-lo no concurso de pequenos escritores de Nova Iorque que vai escolher um livro para ser publicado pela "Palácio dos Escritores", maior editora da América do Sul, também preciso pagar minhas contas. Só consegui terminar a minha faculdade graças ao projeto "pequeno escritor", da minha antiga escola. Ela escolhia cinco estudantes com grande talento para a escrita e os financiavam durante dois anos. Eu fui o quarto escolhido, precisando ter que fazer uma análise sobre a economia atual do país, uma dissertação sobre como a literatura brasileira podia ajudar a população mais carente, e escrever um roteiro de comercial sobre o combate as drogas. Não foi uma tarefa fácil, principalmente por todo o conhecimento que eu tinha sobre roteiros até ali ter saído de paginas de internet e livros mofados da velha biblioteca. Apesar de ter sido um trabalho bem árduo, valeu a pena. Na faculdade eu aprendi muito sobre o que o cinema e a arte queriam ensinar as pessoas. 

Quando você se forma em algo que te faz bem, você provavelmente acredita que trabalhará na mesma coisa. Porém, não é bem isso que aconteceu comigo. Um dos meus professores me indicou para uma vaga de estágio como auxiliar de gerente de projeção em um dos cinemas da cidade, mas como o meu diploma não ficou pronto a tempo, acabei perdendo a vaga. Felizmente, ou infelizmente, o recrutador acabou gostando de mim e conseguiu me encaixar em outra vaga, um pouco mais modesta. "Usher", para ser mais preciso. Não, não é o cantor. Eu também me confundi da primeira vez. Usher era o funcionário que ficaria na área de operações. Para quem não sabe, existem três áreas no cinema. Bilheteria, onde são vendidos os ingressos e entregue brindes de filmes nos lançamentos. Snack bar, a lanchonete do cinema. Lá possui a famosa "pipoca de cinema", com aquela manteiga derretida que ninguém consegue repetir em casa, refrigerantes, sucos, doces, cachorro-quente e mais um amontoado de agrotóxicos. E, por último, a área de operações, onde ficam as salas de cinema, o podium, nome dado ao local onde é recolhido os ingressos, os banheiros e a sala de óculos 3D. Minha tarefa era deixar tudo limpo e organizado. Em outras palavras, eu seria um faxineiro. Não há nenhuma vergonha nisso, mas invés de ter a adaptação do meu livro sendo exibido nas salas de cinema, eu limparia a sujeira de quem fosse assistir filmes. 

 Mesmo sendo barulhento e muitas vezes apertado, ler no metro era uma coisa corriqueira para mim. Principalmente quando eu precisava estudar paginas de roteiro para as provas na faculdade. Atualmente estou lendo "O Alquimista Prodígio e a Espada de Cobre", de um escritor chamado Ailton Sena. Eu gostava de ler livros nacionais pois me ajudava a melhorar a escrita. Estudar roteiros na faculdade era mais relacionado a técnicas, enquanto o livro mostrava a doçura das palavras e as formas que elas podiam ser usadas. Por morar em um conjunto habitacional longe do centro da cidade, era necessário que eu pegasse um ônibus e um metro. Indo até o final da linha em ambos. Eu entrava no serviço as quatorze horas e saia às onze da noite, então levantava bem cedo para deixar tudo pronto para ao longo do dia.  Depois de vinte e três estações e trinta paginas de leitura, eis que chego a estação de metrô. Como era a última estação da linha, todas as pessoas tentariam desembarcar ao mesmo tempo, o que sempre me proporcionava empurrões e cotoveladas. Por isso, como de costume, sempre esperava um intervalo de dez segundos para que todos descessem, e só assim eu me arriscaria a tentar sair vivo dali. A estação era a mais cheia de São Paulo. Centenas de pessoas passavam de um lado para o outro em sequências de segundos. Eu não me arriscaria a ficar entre elas. Antes que pudesse me aventurar nesse mar de seres humanos apressados com suas vidas cotidianas, guardei meu livro na parte mais funda da minha bolsa. Bens preciosos em primeiro lugar sempre. E antes que uma manada de seres humanos se formassem novamente para embarcar no metro que estava prestes a sair, tratei de seguir em direção a primeira escada que aparecera no meu caminho. Ela levava até a saída da rua principal. A estação, que provavelmente viraria uma rotina na minha vida a partir de agora, era maior por dentro do que por fora. Após atravessar a catraca, com outras centenas de pessoas, me deparo com o meu destino final do outro lado da rua.

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