O Canto das Cigarras

Terror

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O Canto das Cigarras
Capítulo Único

Rudá ficara cego no mesmo dia em que Tapera sentiu a criatura pela primeira vez. 
A Pequena Curumim ainda estava na infortunada aldeia enfrentando uma terrível praga, quando um urro atormentado penetrou cada uma das ocas da Tribo. O Eco desolado que sucedeu espalhava-se pelas frestas da mata, despertando o frágil sono de quem finalmente conseguira dormir. Tapera não havia pregado os olhos há dias, mesmo os pressionando com força, e se virando de um lado para o outro em sua cama, "Quando é que tudo isso acabará? " Cogitava em pensamento. Outro grito, dessa vez de alguém diferente que acordara assustado com o primeiro, a menina irritada mordeu seus lábios cinzentos de forma tão violenta, que por pouco não arranca. A Curumim gostaria de se acostumar de uma vez por todas com aquelas almas desvalidas largadas em suas ocas, que gritavam em vão por amparo, um socorro que tardava em vir cansando a esperança dos moribundos. 


A Tribo não era mais a mesma coisa desde que a praga chegara, e sem aviso ou explicação carregava homens, mulheres e crianças ao leito da morte em poucos dias. Passaram-se semanas até que o Pajé, pai de Tapera, tivesse uma favorável ideia de como curar os enfermos, permanecera então a maior parte do tempo em sua oca, trabalhando na tal cura poderosa, e de vez em quando aparecia na porta e acenava para seus filhos, mais para verificar se ainda estavam bem do que qualquer outra coisa. A praga deixara o lugar parecendo uma aldeia fantasma, com direito à lamúria durante a madrugada inteira, o que estorvava a pequena Tapera, não deixando nenhuma outra opção para a menina a não ser perambular pela noite.

Tapera encontrava algumas pessoas no caminho da oca de seu pai, porém, não havia mais cordialidade entre a Tribo, nenhum motivo para simpatia, ninguém mais desejava que Rudá lhe desse um bom dia, pois estariam vivendo de ilusões, os bons dias se foram junto com os mortos que a praga levou. Ao chegar próxima à casa do Pajé, uma mulher desolada saiu de lá com os olhos fundos e vazios, dando sinais de desengano, provavelmente seu filho estava prestes a dar o último suspiro, e ela teria ido visitar o Curandeiro para buscar o remédio infalível tão prometido pelo velho. Pobre mulher, era uma das quais tinha o sorriso mais lindo da aldeia, que por conta de todo sofrimento à sua volta fora apagado de seu rosto sem cor. 


O Lado de fora da oca do pai de Tapera estava praticamente abandonado, por certo o trabalho lhe tomara tanto do seu tempo, que esquecera de cuidar até de seus chás plantados na entrada, a menina recolheu as ervas mortas e as enterrou no fundo, desta forma achara estar ajudando o pai, como uma boa Curumim. Assim que entrou na casa de palha, pôde notar uma tremenda bagunça organizada, o pai estava praticamente correndo de um lado para o outro segurando cuias, que dias atrás, Tapera havia feito com a ajuda de algumas mulheres. O homem não percebeu a filha parada em sua porta até que a mesma bocejasse: 


- Tapera?! Que faz de pé? – Os olhos vermelhos do Pajé demonstravam extremo cansaço, nem ele mesmo saberia dizer quanto tempo estava sem dormir, mas quem é que se importava com seu sono levando em conta toda aquela situação? Dormir não ajudaria em nada, o velho sacrificava seu sono em busca de algo maior, embora estivesse sonolento.

Havia plantas penduradas por todo canto, algumas exalavam um cheiro forte. O velho partia uma das ervas com as duas mãos, e pingava um liquido incolor que saia da erva em um tipo de massa já preparada dentro da cuia. O Pajé parecia estar dançando de um jeito desengonçado enquanto produzia seu remédio. 

- Precisa de ajuda? Posso fazer alguma coisa? 

- Já que está por aqui, seja uma boa Curumim e experimente isso – Disse o ancião botando o liquido que acabara de produzir na boca de sua filha, que engoliu de sobressalto e tossiu engasgada.

- Pai, que gosto horrível! Isso é remédio ou veneno? 

- É remédio, mas o gosto deveria ser mais doce do que azedo – A Careta da pequena Tapera demonstrava desgosto - Não se preocupe, vai te imunizar de qualquer outra doença, eu acho. 


- Tu precisas descansar, está sobrecarregado. 

- Tu é que não devia estar aqui. Não é hora e nem lugar Tapera - O Pajé falava, mas não a olhava, estava concentrado em corrigir seu trabalho. A filha nunca havia o visto tão denso assim antes, seus olhos manifestavam preocupação, como se ele estivesse perdido, e não soubesse exatamente o que fazer - Sei que quer aprender os conhecimentos antigos que eu possuo, mas mulheres não podem ser Pajé, filha, e com essa enfermidade atacando nossa Tribo... 

Era verdade que Tapera muito se interessara pela Pajelança e tudo que envolvesse as funções do Pajé, sempre gostou de observar seu pai trabalhar, e por diversas vezes, ela mesma produzira a partir de ervas básicas, remédio para seus irmãos mais novos, quando estes adoeciam, porém ela entendia a gravidade da situação. 

- Pai, essa cura... como foi que tu pensou nela? – A Curumim tentava embromar o velho, se o mantivesse falando por algum tempo, era bem capaz dele permitir que a garota continuasse a perambular por ali. 

- Ah... quando mais jovem, fui aprendiz de um grande Curandeiro, que hoje não está mais entre nós, mas naquela época, ele já sabia coisas incríveis, e numa dessas ele nos ensinou essa receita, foi como se ele esperasse que uma praga tão devastadora como a que nos sobreveio, viesse a dar as caras. 

- Onde ele está agora? 

- Está à beira-rio, naquela Tribo com quem estamos em guerra. 

- Mas... se ele foi teu mentor, porque ele está com o inimigo, pai? - A dúvida era o sintoma da confusão que se formara na mente da Curumim, era pequena demais para entender as coisas da vida. O velho não encontrando palavras curtas para responder de forma que fosse compreendido por uma criança, inclinou a cabeça estalando o seu pescoço, caminhou até o lado de fora da oca e fez um gesto com as mãos para que a filha o seguisse: 

- Que tal tu dar uma olhadinha em seus irmãos hein? Eu posso jurar que os vi brincando com o Olho de Rudá. 

O Rosto da menina se desmanchou em desanimo, ser babá dos irmãos não era a função que mais lhe agradava. Os irmãos Babaquaras, como eram chamados, aprontavam o tempo inteiro por toda a aldeia, não se tinha qualquer autoridade para os inibir, visto que o Cacique estava padecendo em seu leito, e o Pajé andava muito ocupado, sobrara então de qualquer forma para Tapera. Tamanduá, que antes da praga treinava para ser um grande caçador, continuou a praticar mesmo depois que o seu mentor fora impedido de ensinar, vivia atirando flechas fabricadas pelo próprio caçula, afim de acertar algum animal para jantar, porém, em dias tão sombrios como aquele, roubara o Olho de Rudá e fizera o amuleto de alvo. Tapera não tentou impedi-lo, permitiu que o irmão extravasasse sua ira na divindade, que já não era tão reverenciada como antigamente. Tamanduá levantou seu arco e mirou na pedra mística. O amuleto fora transpassado pela flecha do atirador, como se a ponta tivesse perfurado o globo ocular do deus, assim que Tapera puxou a seta, o Olho de Rudá se despedaçou. Rudá já estava cego há muito tempo. A Curumim recolheu os pedaços do amuleto espalhados pelo chão, e juntou em suas mãos, caminhou até o lado de fora, e espiou as nuvens, como se vasculhasse pela última vez o céu à procura do deus, nenhum sinal dele. Tapera sentiu-se desorientada por um momento, as estrelas giravam, e ela fechou os olhos perdendo o equilíbrio, permaneceu sentada segurando os cacos do Olho de Rudá, a aldeia estava muda, a floresta se calou, e o silêncio que imperava naquele momento só fora quebrado pelo impertinente canto das Cigarras. 


Tapera não se importou em deixar cair os fragmentos do amuleto, quando ouviu um brado de horror soar, não fora um berro qualquer, fora o Pajé. A Curumim correu com toda a velocidade que podia pôr em seus passos, e encontrou seu pai deitado no chão debruçado: 

- Pai?! O que foi? O que aconteceu? – A Menina perguntou desesperada. Atrás dela surgiram seus irmãos confusos, também queriam entender o porquê do grito. O Pajé estava fungando com o olhar atordoado, e que lentamente foi movimentando até os rostos assustados das crianças: 

- Não há mais salvação, nada mais pode nos salvar – O Velho levantou uma das mãos tremendo e com o indicador apontou para os três curumins que estavam em volta dele - Vocês devem fugir, vão agora! Tapera, leve teus irmãos para bem longe, o mais longe que puder... vão! 

O sinal do início da doença era evidente, a praga estava escamando em seu braço tremulo que ficara pesado e tombara, o homem pôs-se a praguejar os espíritos, em pânico pedia pela morte, os irmãos de Tapera ao verem o pai gemer de dor, choraram amargamente sabendo o destino do Pajé, porém Tapera sendo uma boa Curumim, pegou Jandir no colo e puxou Tamanduá pelo braço, juntos rumaram em direção à Floresta. Tapera tinha um plano. Salvaria seu pai e toda a Tribo?! 

Era necessário medidas extremas e desesperada. Tapera decidiu ir atrás do Curandeiro que seu pai havia mencionado, conhecia os riscos, mas faria qualquer coisa para salvar sua Tribo. A Trilha que pegaram nunca era utilizada devido a guerra entre as aldeias, porém Tamanduá percebera que as plantas estavam esmagadas e sem vida, as arvores caducas apresentavam-se frágeis, "O Que fez isso? " Perguntou-se antes de ouvir um baque atrás de si, nenhum dos irmãos conseguira ver nada além de vultos, um bramido fez com que Tapera mandasse que corressem. Já em movimento, a garota tentava descobrir que animal os perseguia, ouvia o som das folhas chacoalhando e galhos quebrando, mas o que quer que fosse que estivesse em seu encalço, continuava oculto. Tamanduá investia suas flechas sem saber se estava o acertando, pois só conseguia ver uma sombra pulando de um lado para o outro: 

- Contra quem estou atirando Tapera?! Eu não vejo coisa alguma! – Tamanduá questionava a irmã enquanto corria girando o corpo para trás, e lançando mais uma flecha em direção ao nada. 

- Continue! Ela está se aproximando, posso ouvi-la – Tapera voava por entre as árvores se desviando sem sucesso dos galhos baixos, seu outro irmão, o caçula, estava agarrado firme em suas costas tremendo de medo. A Pequena Curumim não sabia exatamente onde se esconder naquela mata, era possível que a criatura que a perseguia já conhecesse tudo até melhor do que ela mesma. Foi Jandir que percebeu uma gruta de longe, estendeu o braço por entre os ombros de Tapera e apontou para a caverna meia encoberta por ramos, os três se refugiaram em seu novo esconderijo. Tamanduá praguejava. A garota estava com o dedo indicador sobre os lábios, pedindo por silencio: 

- Irei continuar sozinha, Tamanduá – Disse Tapera - A Criatura me seguirá, então vocês fogem. 

Assim que Tapera saiu da gruta, escutou um ronco esquisito, correra em direção à beira-rio. A vegetação voltara a ter vida, "Ela não passou por aqui ainda", pensou enquanto corria velozmente. A menina não conseguia ter uma visão do que vinha pela frente, tentava se esquivar das folhas baixas que batiam em seu rosto, quando esbarrou num animal diferente que ela nunca tinha visto antes, caíra de costas e ficara zonza, sua visão estava embaçada, mas ela pôde ver as crinas caindo sobre o torso do animal, então ele ficara sob as duas patas traseiras enquanto relinchava, Tapera fascinada sabia que não quem a perseguia, alguma coisa o incomodava, pois ele balançava a cabeça freneticamente. A Pequena Curumim percebeu na mesma hora que o som perturbador vindo da criatura, era o que enlouquecia o Cavalo à sua frente. Tapera precisava continuar o seu rumo, ambos se entreolharam como se estivessem se despedindo e correram, a garota na direção contrária da besta, e o bicho contra a criatura afim de deter aquele que infernizava sua audição. O som parara por alguns minutos, antes de começar novamente, então Tapera sabia que o Cavalo não havia sobrevivido.

Faltava bem pouco para a filha do Pajé chegar na Tribo à beira-rio quando topou com a besta, um som estridente fez a garota cair com as mãos em seus ouvidos e se contorcer no chão, sua vista enturvou. Uma silhueta grosseira tampou a luz do sol e o clima esfriara de repente.  

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