Suspense-Mistério
93
0

Capítulo

Publicidade

Capitulo dedicado à: “Ergueu o braço como para colher estrelas. Logo, porém, estremeceu, palpitando coração de medo: apontar estrelas cria verrugas.” Aluysio Sampaio (1926).


MEMÓRIAS DE UM BRINQUEDO.

Revirando as gavetas, procurando não se sabe o quê, Cássio o encontrou. O mesmo cabelo, a mesma camisa azul com a gola vermelha, as mesmas calças e sapatos brancos e o mesmo sorriso, apesar do rosto um pouco queimado. Talvez tenha sido uma malvadeza feita por seu antigo dono antes de chegar a suas mãos, que o deixou naquele estado. Mas no geral, este, por mais velho que pareça, era a sua última ligação com a infância.

Olhando-o e admirando-o, começou a se lembrar da primeira vez que o ganhou. Sua mãe o trouxera do trabalho. Estava na parte de achados e perdidos a mais de um ano, e o antigo dono nunca viera reclamá-lo. Talvez o pai ou a mãe já tivesse suprido a falta dele comprando outro igual, ou algum ainda mais caro. Coisa comum que os pais modernos fazem hoje em dia com seus filhos, para compensar tanta ausência e tanta liberdade reprimida pelos afazeres da vida conjugal e profissional. Ou por não terem tido a família feliz que a televisão mostra em seus comerciais de carros, apartamentos e comidas industrializadas, ficam enchendo os filhos de presentes para compensar suas frustrações de infância. Frustração essa, causada pela comparação entre a família real e a família gerada pela mídia.

Enquanto fitava-o, sua mente regressava... Os tempos não foram fáceis naquela época. A mãe separada duas vezes, pois não tivera sorte nos relacionamentos. Ele, o filho mais novo do segundo casamento, que vivia muitas vezes esquecido nos cantos, com poucas condições, muitas cobranças por parte da sociedade e muitos desafios pela frente. Lembrou-se de quando só possuía duas camisas e duas bermudas para usar, e o quanto vestiu roupas usadas dos irmãos, para não faltar pão na mesa. Lembrou-se também de quando aprendeu a costurar as próprias roupas, para poder poupar a mãe que trabalhava o dia inteiro e chegava em casa extremamente cansada. Lembrou também da época das revoltas na adolescência, de ver os seus irmãos tendo tudo das mãos da mãe e nada chegando às mãos dele. Não entendia isso

Lembrou-se também das mudanças que ocorreram com a descoberta do amor, o quanto foi usado, sentindo na pele todos os preconceitos que sofrera por parte das meninas. E viu o quanto aprendeu levando foras e mais foras sem desistir de tentar conquistar. Esses foras que levou, o ensinaram com o passar dos anos, a falar as palavras e tomar as atitudes certas. Hoje é um homem raro, muito disputado pelas mulheres, não pela beleza, mas pelo caráter e por se destacar no meio da multidão, não como um homem que uma mulher pode exibir pras amigas, mas por ser um homem que sabe completá-las, pois é isso o que elas deixaram de procurar.

Uma vez conheceu uma menina triste que morava na mesma rua que ele, chamada Samantha. Ela possuía uma alma nublada, como se nada no mundo pudesse iluminar seus dias, pois para ela, todos os dias eram negros como a noite. Ele deu a ela o boneco que tanto fez parte da sua vida, para que aquele sorriso um pouco queimado pudesse ao menos dar-lhe um pouco de esperança em sua jornada triste. Mas ela agradeceu, e mesmo forçando um sorriso, o devolveu. Dias depois ele ficou muito triste, pois a menina tinha sido estuprada e morta brutalmente dentro da própria casa. Como forma de luto, guardou em um lugar onde não mais pudesse encontra-lo. Porém lá estava ele, com o boneco, que agora cabia inteiro na palma da sua mão, e com algumas lágrimas nos olhos.

...

...

...

É preciso estar logado para visualizar o restante do capítulo.

Este conteúdo é protegido pela Lei nº 9.610/98 – a Lei de Direitos Autorais.
Assinar ou apresentar como seu é crime pois viola os direitos de autor.

O acesso a este conteúdo é registrado de acordo com as políticas de uso.

Ir para outro capítulo:

Capítulo comentários

É preciso estar logado para poder comentar. clique aqui para entrar ou fazer o cadastro.

Comentários

Carregar Mais

Livro compartilhar

Olá , você pode compartilhar ou convidar seus amigos, para ler esse livro através do Facebook, Twitter ou Email.