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Parte I

O rio secou, e luas suficientes já haviam se passado para que o velho pajé não tivesse mais dúvidas de que o sacrifício da chuva era necessário. Os homens ouviam com atenção a decisão de seu líder, e um clima de tensão e pesar se instalou na escuridão do recinto, iluminado apenas por uma pequena fogueira que contribuía para aumentar o calor sufocante daquela noite. Ela sabia que não deveria estar ali, escondida num buraco entre as palhas que compunham as paredes da grande opy, pois aquela reunião era apenas para homens, com castigos severos para a moça que fosse pega metendo o nariz onde não era chamada. Mas, a curiosa e inconsequente, Kauane, que não tinha a idade nem de doze verões, estava sendo motivada por um presságio que a perseguia desde a noite passada.

            Havia sonhado com a temível Onça-boi querendo devorá-la e a seus dois irmãos mais novos, e por mais que sua mãe lhe dissesse que fora apenas um pesadelo devido ela ter ficado até tarde escutando as conversas dos mais velhos, Kauane não conseguia se livrar da sensação de que algo ruim estava prestes a acontecer, e tal presságio se comprovou verdadeiro quando ela se esgueirou sorrateiramente para aquele pequeno espaço na parede da opy e escutou o velho pajé falar sobre o sacrifício da chuva. Ela também sabia o que era isso, e teve um súbito estremecimento.

Além da Onça-boi – um perigoso espírito que há muito tempo havia tomado a forma de uma onça gigante, e que se limitava a proteger uma restrita área da mata, devorando qualquer um que ousasse invadir seu território, com exceção da mulher mais velha, que vez ou outra tinha liberdade de cruzar as fronteiras para depositar-lhes oferendas, outra antiga e poderosa entidade também era temida pela tribo; o Noturno. Desde os primórdios, quando a primeira grande seca ocorreu, o Noturno rondava as terras ao leste, próximo as praias rochosas, e segundo os mais velhos, tinha o poder de comandar chuvas e tempestades, e era o único que podia dar fim a secura que os castigava, em troca de um agrado.

O sacrifício da chuva. Fora há sete verões que tal rito tinha sido realizado pela última vez? O medo se instalou de tal forma em Kauane que ela não conseguiu mais se manter imóvel no abafado buraco na parede, e do mesmo modo sorrateiro que lá entrou, saiu, para fora da opy, correndo até a uma moita próxima, onde se encolheu entre volumosas raízes sobressalentes e abraçou os próprios joelhos, tremendo e com água nos olhos. Era um antigo acordo entre seus ancestrais e Noturno, que o espírito manteria as colheitas fartas e os rios cheios com suas chuvas, além de impedir a chegada de inimigos invasores com suas tempestades, mas em troca, uma filha dos homens devia ser deixada na pedra da noite, nos domínios do Noturno.

Queria chorar, mas temia que outros escutassem seu pranto, pois poderia sim ser escolhida como sacrifício, e ficou tão imóvel que podia ouvir o som dos próprios dentes batendo e os pequenos insetos se movendo na vegetação em volta. Folhas farfalharam nas proximidades, fazendo-a prender a respiração. Avistava a lua por meio de um espaço entre os galhos das árvores, e pediu a deusa que lá morava para ocultá-la, que ninguém a encontrasse naquela noite. Se seu desejo foi realizado, ela não pensou sobre, mas quando enfim o cansaço e o sono a venceram, quando estava prestes a fechar os olhos de vez, ouviu um grito que rasgou a noite. O sacrifício tinha sido escolhido, e era a mãe da criança que berrava em protestos. Quem teria sido? Mas Kauane não ousou sair de onde estava, até que o sol voltou a reinar no céu.

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