A Mariposa de Fogo

Terror

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A Mariposa de Fogo
ATO I

"Uma vergonha abominável", a velha repetia com sua voz falhada, feito um LP arranhado, enquanto tremia as mãos ossudas no ar e a cabeça se movia de um lado para o outro no travesseiro, e deste modo continuaria por tempo indeterminado até que a outra senhora ao lado da cama lhe fizesse tomar os remédios para dormir. "Uma vergonha abominável", Larissa repassava baixinho, para si mesma, forçando o seu cérebro a encontrar um significado por detrás daquelas palavras, pois ela havia sonhado com aquela frase na noite anterior. No sonho, ela caminhava por aquele casarão, sendo guiada por uma mariposa preta, em busca de ajudar alguém que chorava, enquanto uma voz berrava "uma vergonha abominável" a plenos pulmões. De repente, um calor insuportável a envolvia, fazendo-a acordar sentindo-se sufocada.

Arthur saiu emburrado do quarto da velha, pisando forte, como se expulsasse sua ira por meio do choque do piso com as solas de seus sapatos, e Larissa o seguiu, pois sabia que, mais do que a raiva, era apenas tristeza que se escondia por detrás de seu rosto sério. Não que ela fosse perguntar o que o incomodava, ou lhe afagar ou fazer qualquer coisa do tipo, pois após sete anos juntos eles haviam se adaptado ao jeito peculiar um do outro. Ela não interviria em seu silêncio, apenas ficaria por perto, muda, contemplando a noite rural; a vegetação abundante e robusta devido as recentes chuvas, criando silhuetas negras em volta do extenso quintal de terra com trechos de grama aqui e ali, banhados pela luz da lua nova. Era um momento de comunhão entre ambos, feito de silêncio e uma ligeira distância.

Mas por que, de repente, tal comunhão já não lhe bastava? Ultimamente aquele silêncio de Arthur a incomodava. Larissa queria entender o que se passava na mente dele, entender o que, além dos preconceitos básicos, complicava tanto a relação dele com a família, mas sabia que quando o namorado se trancava assim, intervir só o deixaria ainda mais nervoso e até mesmo um tanto agressivo.

Haviam chegado a velha fazenda na tarde do dia anterior, sendo recebidos friamente pela tia muda de Arthur, Tia Lavínia, uma senhora baixinha e de movimentos apressados, sempre ocupada, revezando entre a limpeza do casarão, auxiliando na cozinha e os cuidados para com a velha moribunda. Era um casarão com mais de cento e cinquenta anos de idade, construído na era de ouro da família Moreira Vales, pelo patriarca que fora o primeiro conhecido como o Rei do Café da época, título que posteriormente foi designado a todo herdeiro em cada geração dos Moreira Vales. O que os ancestrais de seu namorado poderiam pensar ao observar os vivos hoje em dia? Larissa refletia, quando observava o estado das coisas atuais: Apenas dois empregados (ou três, se fossemos contar com Tia Lavínia) para resolver tudo naquele lugar, onde mais da metade das terras já haviam sido vendidas por herdeiros desinteressados, e a atual Rainha do Café, Antônia Gretchen Moreira Vales, sofria seus últimos dias de vida sentindo dores numa cama, ainda resmungando a tragédia do fim de um império representado na figura de seu último herdeiro, Arthur, que ela ainda teimava em chamar de Laura; herdeiro que apenas esperava sua mãe dar o último suspiro para terminar de vender o que sobrara da fazenda e nunca mais ser forçado a voltar aquele lugar.

Larissa não precisou ser apresentada como companheira de Arthur, pois todos já sabiam, ela notou isso no olhar desapontado de Tia Lavínia, e no desprezo assustador da sogra que estava sendo levada pelo câncer. Mas no fundo sabia que o que quer que aquelas senhoras sentissem por ela, nada se comparava ao que nutriam pelo próprio Arthur, a ovelha negra, o primeiro caso, diziam, entre os Moreira Vales, de uma moça de aspecto frágil que fora para a capital para estudar e voltara formada, mas transformada em um rapaz, literalmente. A garota Laura agora era Arthur, um homem sério e de poucas palavras, graças aos milagres da ciência, com suas cirurgias e injeções de hormônios.

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