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Antes de Abrir os Olhos - Jon O'Brien

O garoto queria ter acordado mais tarde; aquele horário lhe trazia gatilhos que não deveriam ser puxados. Pobrezinho, mas ele perderia a manhã inteira, diriam os avós que ele não via há anos. O garoto não se importava com essas coisas simples e banais como perder a manhã inteira dormindo. Havia um ganho nisso tudo, afinal. Ele tinha outros pensamentos serpeando em sua cabeça. Pensamentos estes que ninguém compreenderia. Era por isso que os mantinha guardados; longe de todos. É apenas meu. Ninguém vê, ninguém toca.

O garoto sentou-se com esforço e logo tratou de beber o resto da água que estava há dois dias no criado-mudo. Água ruim, barrenta. Mas fazer o quê? A boca dele estava seca e sua garganta precisava ser molhada — inundada descreveria melhor a necessidade. O garoto calçou os chinelos e afastou o cobertor das suas pernas, para poder se levantar.

Ao ficar de pé, percebeu o quanto seu corpo estava frágil. Doía, e muito. Há quando tempo não comia? As pernas tiritavam e o seu arrastar era lânguido e triste, como o de um velho que perdera todos os motivos para continuar andando com jovialidade. O dia tinha acabado de começar para ele e, para enaltecer esse pensamento, o garoto olhou para trás e viu no rádio-relógio que eram 08h02. Demorou alguns segundos olhando para o aparelho, como se não estivesse vendo direito. Quando compreendeu que era aquele horário mesmo, percebeu o quanto era cedo. Cedo demais para ele iniciar mais um desses dias melancólicos e pungentes. Ele com certeza queria ter acordado mais tarde.

Foi ao banheiro fazer suas necessidades, mas saiu de lá sem ter escovado os dentes. Não era preguiça, mas sim cansaço. Era o que ele sentia na maior parte do tempo: como se há muito estivesse alimentando um animal debilitado, até que o animal se voltava contra ele e o engolia. Agora, ele estava preso a tudo isso, a essa vida monótona e desgastante, uma vida que o amarrava a ele e o protegia da própria autenticidade. O garoto não tinha ideia do que precisava no momento, porque tudo o que disseram para ele fazer não gerou resultados positivos. Tudo se juntou e transformou-se em um único e enorme problema.

As ligações que recebia não eram necessariamente destinadas a ele. O celular que usava pertencera a um amigo, que se mudou de cidade e deixou o aparelho com ele, para manterem algum contato. Seu único amigo. Com o tempo, ao perceber que as pessoas continuariam ligando por engano — ou por querer importunar —, o garoto decidiu deixar de atender ao telefone, e nem mesmo o utilizou para falar com esse amigo que partira. As coisas já não eram mais as mesmas, afinal.

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