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A Hora da Visita - Fabio Alex

Era o que ela chamava de “a hora do relógio”; aquele momento da noite quando a casa era envolvida por um silêncio tão dominador que o tiquetaquear do grande e velho relógio da cozinha ecoava por todo o ambiente como se estivesse pendurado logo atrás de sua cabeça, entoando sua melodia sinistra. Tique-taque, tique-taque, tique-taque... O som a envolvia, obrigando-a a se concentrar cada vez mais, e por fim parecia fazer parte dela mesma. Uma súbita angústia há muito esquecida, uma lembrança resumida em sensações primitivas, brotou lá no fundo de sua mente. Tique-taque, tique-taque, tique-taque...

O sono desapareceu no mesmo instante, ela começava a suar sob o grosso cobertor que havia escolhido para aquela noite inicialmente tão fria, mas quando o puxou para descobrir as pernas, acabou por se sentir estranhamente desprotegida, como se um mero pedaço de pano como aquele até então a isolasse de algo que ela não sabia o que era, mas que a espreitava no silêncio e na escuridão.

Não ousava abrir os olhos. Não ousava se levantar. Mas, por quê?

Foi então que as sensações se desdobraram em lembranças de uma noite como aquela, uma de muitas que fizeram parte de sua infância, quando a mãe, jovem e irresponsável, desaparecia por dias seguidos em suas viagens de vício e degradação, e a pequena Renata encontrava refúgio naquela mesma casa que um dia pertencera a seus avós.

Tentou se agarrar com todas às forças nas facetas doces de tal lembrança, de como sempre havia refeições nas horas exatas, e nos rostos gentis e de pele ainda mais escura que a sua. Nos gestos carinhosos da avó, sempre atarefada na cozinha, e nas conversas animadas com o avô. Lembrava da imagem de si mesma, uma menina por volta dos seis ou sete anos, magrela e inquieta, com o cabelo crespo e muito preto preso em tranças elaboradas feitas delicadamente por sua avó, só para minutos depois se desfazerem enquanto ela corria e subia nas árvores com outras crianças daquele precário bairro. Brincando até anoitecer.

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