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Cixatrizes

 

Acordei sendo outra vez aquela garota de quinze anos. Isso é tão paralisante e assustador. Me vi presa dentro de mim com medo de sair do quarto e viver. Sinto-me rendida a cada vez que fico diante do espelho, é que ele me mostra um reflexo errôneo sobre quem de verdade sou. Ele reflete uma garota, mas eu sou um homem. Sou Rafael. Por que eles insistem em me chamar de Rafaela? Este “ela” ao final do meu nome me mata a cada vez que ouço. É como se algo crescesse dentro de mim e me asfixiasse sem que eu pudesse controlar como em exato me sinto.

Ninguém nasce homem ou mulher, nascemos seres humanos. Por que me olham na rua como uma espécie de aberração por simplesmente não seguir rótulos impostos? Minha essência é feita daquilo que ninguém vê, que ninguém nota, que ninguém se importa em conhecer. Quem eu sou vai muito além do que o espelho consegue captar. Se os olhos julgadores que me cercam conseguissem me enxergar pelo avesso, talvez veriam que esse é meu lado correto.

Com lágrimas e um grande pesar lembro do meu ensino médio e do quanto tudo dentro de mim parecia solucionável. Entender as razões pelas quais eu não me assemelhava as demais garotas era frustrante e doloroso. Eu me sentia inferior, ainda que eu soubesse que - teoricamente - ninguém é inferior a ninguém. Eu sentia vergonha de tudo em mim e sempre me posicionava cabisbaixa diante dos meus colegas. É que eles faziam questão de menosprezar meu jeito e costumavam repetir com ênfase que eu tinha uma maneira masculina de andar, pelo simples fato de – segundo eles – não saber rebolar o bumbum como o padrão comum de garotas. Além disso, meu timbre grave de falar também era motivo depreciação, assim como a incógnita incrédula que permeava sobre minha feminilidade a cada vez eu afirmava odiar maquiagem. Então eu chorava inconsolavelmente e acred

Anos passaram e a garota de quinze anos ainda não morreu dentro de mim. Ela continua chorando e se sentindo abandonada nesse mundo onde só parece ter espaço para pessoas "cisgênero". Sou tão de mal com minha aparência que me recuso a pensar na ideia de alguém me ver com bons olhos. É como se fosse impossível na minha cabeça. Acho que a ideia da projeção de concepções de como nos sentimos é válida. Vai ver é por isso que luto tanto pelo meu sonho de resignar meu sexo. Acho que assim eu deixarei de ser uma menina reprimida, para me tornar um homem confiante. No entanto, parece que meu sonho afasta as pessoas que mais amo de mim. Sei que tudo soa incompreensível para aqueles que não carregam na pele a dor da não-identificação de si mesmo, mas vai além do que meu autocontrole psicológico suporta. Eu já desisti de con

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