O PORÃO

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Publicado em

23/09/20

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Finalizado

RESUMO

                                                                             

                                                                                                   O PORÃO

 

 

                          Ele sempre sonhara viver num lugar tranquilo, onde pudesse fazer longas caminhadas e se dedicar à escrita de suas memórias.

                          Casara-se, já maduro, com uma estrangeira que conhecera num dos workshops sobre os novos desafios da era moderna. Ela lhe parecera a mulher ideal: viúva, sem filhos, independente, tranquila e culta e também manifestara o desejo de viver a idade madura com menos agito.

                          Seu nome - May – parecia adequado já que indicava o início da primavera em seu país de origem. Gostava de cães, de flores e de livros e os poucos parentes com quem se relacionava moravam muito distantes.                          Casaram-se numa cerimônia simples, um casal de amigos lhes servindo de padrinhos e que os acompanhara no jantar comemorativo das bodas.

                          Ele se aposentara recentemente e, com as economias que juntara mais uma pequena herança, comprara uma casa no interior, o protótipo do que sempre sonhara; poucos vizinhos, um pequeno rio onde poderia pescar e uma floresta mais além.

                          Os primeiros meses foram idílicos: ela ocupando-se do jardim e da decoração, ele dedicado à restauração da casa que incluía, além dos cômodos comuns, um pequeno anexo que lhe servia de escritório, um sótão com uma grande janela de vidro que permitia apreciar o céu estrelado nas noites de lua e um porão, escuro e fresco, onde pretendiam acomodar uma adega. Por enquanto, o porão servia apenas como local para guardar ferramentas e alguns móveis que os antigos moradores haviam deixado para trás. Mais tarde poderiam ser aproveitados numa edícula que pretendiam construir para acomodar visitas ou até, quem sabe, receber viajantes em trânsito, a renda extra ajudando na manutenção do imóvel.

                          À tardinha faziam longas caminhadas margeando o rio, trocando impressões de viagens e traçando planos. Eram seguidos pelos três vira latas que haviam adotado logo ao se mudarem para o lugar.

                          Depois do jantar, acompanhado de um bom vinho, ele sentava-se para escrever seu livro de memórias, enquanto ela lia ou jogava paciência.

                          Raramente iam à cidade; no mais das vezes, retiravam pequenas quantias em dinheiro da única agência bancária  local, faziam as compras domésticas e mais algumas mudas para o quintal e o jardim, tomavam um café e trocavam algumas palavras com os moradores. Eram simpáticos mas reservados.

                          A vida seguia seu rumo, sem  sobressaltos; o livro de memórias ganhando vários capítulos e a casa se mostrando mais vistosa, com pintura nova e jardins bem cuidados.

                          Alguns meses depois de instalados na charmosa casa no campo, May começou a apresentar mudanças de humor; ora era esfuziante, otimista e produtiva, ora ficava muito quieta e de olhar perdido na distância, sem querer caminhar ou molhar as plantas do jardim que tanto amava. Ele começa a se preocupar, insiste numa consulta médica, ela recusa e logo volta a ser a May de sempre. Mas seus episódios recorrentes de insônia e tristeza perturbam e preocupam o marido que, por várias vezes, tem que sair de casa, alta madrugada, para trazer de volta a esposa, encontrada vagando pela estrada, à procura de não se sabe o quê.

                          Ele consegue, finalmente, leva-la à Capital para uma consulta, seguida de uma série de exames. A irmã de May sugere que ela seja levada ao seu país de origem onde terá assistência de médicos e clínicas renomadas. May aceita, parecendo feliz em reencontrar a irmã e poder rever sua terra natal e ele não tem como recusar a oferta. A esposa parte e ele retorna à casa no interior, prometendo cuidar de tudo e talvez, em breve, ir visitá-la caso ela precise estender sua estadia por conta do tratamento que necessitar.

                          Eles haviam ficado fora por apenas três dias. Ao retornar para casa, ele estranha o comportamento dos cães: magros, assustados e arredios. Imagina que se ressentiram do abandono temporário dos donos e reforça os cuidados.

                           Certa noite, acorda sobressaltado. Atento aos sons externos, não nota nada de estranho. Imagina que foi um sonho e que a falta da esposa o está afetando, a solidão pesa mais quando já se viveu bastante e a incógnita quanto ao futuro traz inquietação, nem sempre otimista.

                          Pela manhã,  nota a falta de um dos cães. Chama pelo nome, assobia e mais tarde o procura pelos arredores, sem sucesso. Talvez o animal tenha se enredado com alguma fêmea da vizinhança e assim que passar o cio e a natureza cumprir sua função ele estará de volta, fraco, mordido por outros machos mas retomará a sua rotina.

                           Como sempre todas as manhãs, coloca ração para os cães nas respectivas vasilhas, enche as cumbucas com água fresca e se dedica ao cuidado com a pequena horta e o jardim. Agora, com May distante, sobra-lhe pouco tempo para suas caminhadas e a escrita do livro, as tarefas diárias exigindo dedicação redobrada. Quando vê, o dia transcorreu sem que percebesse e já é hora de fechar as janelas para evitar os mosquitos que vem em bandos invisíveis das bandas do rio e da floresta próximos, de acender as luzes e preparar seu jantar.

                          Naquela noite, acorda novamente, a sensação de que há ruídos estranhos do lado de fora, mas como os cães não estão latindo, afasta a impressão. É alta madrugada e decide fazer contato com May para certificar-se de que ela está bem. Envia uma mensagem e ela logo retorna, o fuso horário esclarecendo que ela  já tomara seu café da manhã e se preparava para ir até a clínica fazer mais exames. No geral dizia estar bem, o que o acalma. Logo amanhece e ele se prepara para reiniciar as tarefas cotidianas, depois de uma boa xícara de café para espantar os fantasmas da sua madrugada insone.

                         Acha muito estranho que as vasilhas de água e ração dos cães continuem cheias como as deixara no dia anterior. Chama por eles mas nenhum aparece. – Devem estar na farra, correndo atrás da mesma namorada!

                          Mais alguns dias se passam e nenhum vizinho dá notícia dos fujões. Sem raça definida, sem beleza de destaque, por certo não foram roubados, quem sabe foram capturados pela carrocinha? A opção logo é descartada e o mistério começa a intrigar a todos, pois outros cães da redondeza também desapareceram sem deixar pistas.    

                          Já há algumas noites que sons estranhos vinham do porão: um de  garras arranhando a parede e gemidos curtos. Talvez um gambá teria se esgueirado pelos beirais da casa, tentando encontrar um local para instalar sua família e agora não conseguia sair.

                          Não  dava para contar com o alerta dos cães da casa que continuavam desaparecidos. Ele decide averiguar, se levanta e desce as escadas munido de uma lanterna e um taco de madeira.

                          Demora a localizar o ser, misturado às tranqueiras  que ali se achavam depositadas.

                          O foco da lanterna encontra um par de olhos brilhantes, sinistros. Olhos cheios de fúria cercados de pelos eriçados que encimam uma boca arreganhada, de dentes pontiagudos.

                          Enquanto procurava, ele se afastara da porta de acesso ao porão e agora, encostado à parede dos fundos, tinha sobre si o olhar malévolo do ser. O embate era iminente, mas ele não poderia recuar, afinal sobrepujava o ser em tamanho e ainda tinha em mãos o pesado taco de madeira.

                          O som de móveis derrubados, gritos e rosnados se misturam no silêncio da noite, onde o homem solitário enfrenta uma luta decisiva. Garras poderosas lhe deixam cortes profundos no peito e face enquanto dentes afiados se cravam, impiedosos, no pescoço indefeso.

                           Os vizinhos encontram o corpo dilacerado no chão do porão, a lanterna ainda acesa e seu foco dirigido a um antigo espelho onde a cena dantesca teria se refletido, sem nenhuma testemunha. A escada mostra marcas de pegadas ensanguentadas. Pegadas que ninguém identifica e que se perdem na mata próxima...

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